Copom se encontra num ponto importante que exige mudança na estratégia imaginada anteriormente
Esta semana concentra reuniões dos principais bancos centrais do mundo, com destaque para o Fomc e para o Copom. O pano de fundo é o mesmo em todos os casos: a alta recente do petróleo e a necessidade de reavaliar a velocidade dos cortes de juros previamente sinalizados. O que muda é a posição de partida de cada autoridade monetária. No caso do BCB, há um conjunto de choques domésticos que exige uma comunicação mais cuidadosa.
Na última reunião, o ambiente global já apresentava riscos de elevação futura nas taxas de juros ou de postergamento das quedas. Hoje a perspectiva de juros mais elevados é mais latente e tende a interferir nos destinos domésticos. Por outro lado, o principal canal de transmissão desse cenário externo para a inflação brasileira, o câmbio, segue se movendo na direção oposta: a despeito da política monetária global menos expansionista, a moeda doméstica manteve o movimento de apreciação e atingiu patamar abaixo de R$ 5 por dólar.
No caso do banco central dos EUA, o modo é de aguardar as consequências do petróleo mais alto e deixar de lado o viés claro que existia para novos cortes na taxa básica de juros. Esta será a última reunião comandada por Jerome Powell, e no processo de transição para o novo presidente da autoridade monetária será preciso observar como o comitê reagirá às novidades sobre a inflação global e às pressões externas vindas do presidente Donald Trump. Achamos que a comunicação do Fomc não deverá sofrer alteração significativa, mas o comitê terá que reconhecer que os riscos inflacionários ficaram mais “two-sided” neste momento e que novas flexibilizações estão, no mínimo, postergadas.
No caso do Banco Central Europeu (BCE), por mais que os sinais públicos recentes deem conta de que uma alta de juros não é iminente, observou-se um efeito relevante da alta da inflação sobre as expectativas dos agentes, em um processo similar ao ocorrido no BCB. Por isso, ainda que a alta de juros em abril não ocorra, há necessidade de uma comunicação firme que abra explicitamente a perspectiva de elevação de juros na próxima reunião. O BCE deve sair desta reunião com viés de alta.
E no caso da reunião do Copom? O BCB se reúne com preços de petróleo não muito diferentes dos observados na última reunião e com câmbio mais apreciado, o que significa um efeito da inflação externa sobre a doméstica menor do que no encontro anterior. Mesmo assim, há necessidade de uma comunicação mais dura com relação aos riscos inflacionários futuros. Por que isso?
Não é que a inflação doméstica tenha sentido o choque global de forma mais rápida ou intensa. É que tomamos um duplo choque inflacionário simultaneamente, com efeito não desprezível sobre as expectativas. Mesmo com a Petrobras segurando reajustes e o governo abrindo mão de impostos para conter o repasse do petróleo, observamos algum aumento doméstico nos preços de energia. Isso ocorreu no mesmo momento em que, após um período de redução da inflação doméstica desde o segundo semestre do ano passado, viu-se o fim dessa bonança e voltamos a ter alguns choques internos, mais especificamente sobre alimentos, passagens aéreas e bens industriais. Esses últimos podem estar capturando o efeito de maiores custos de transporte, mesmo com câmbio mais apreciado.
O que foi muito negativo para o BCB foi o impacto disso sobre as expectativas: o ano corrente projetado foi acima do teto da banda de oscilação da meta, 2027 passou a refletir maior inércia inflacionária (efeito esperado) e, de forma muito negativa, houve aumento da inflação esperada para 2028, em uma sinalização do mercado ao BCB de que ele não estaria tratando os riscos inflacionários futuros com o devido cuidado.
Esse quadro vai exigir maior cautela do Copom até que os efeitos primários do choque se dissipem e se possa dimensionar os efeitos secundários, o que posterga qualquer sinalização de aceleração nos cortes de juros. A orientação ao Copom é seguir cortando juros com parcimônia, mantendo a calibragem em patamar restritivo, sem dar sinais de que estamos na iminência de acelerar o ciclo. Na verdade, é preciso passar uma mensagem dura de que não aceitaremos uma nova rodada de piora das expectativas de inflação, principalmente para horizontes mais longos. O comitê se encontra num ponto importante que exige mudança na estratégia imaginada anteriormente. Caso o cenário se encaminhe para menores riscos inflacionários à frente, ajustam-se comunicação e estratégia. Caso o cenário seja o mais negativo, a comunicação já estará preparada. É o momento de aguardar.

