Eclosão do conflito envolvendo EUA, Israel e Irã adicionou variável que bagunçou perspectivas de juros no mundo todo
Após um longo e necessário período de ajuste na taxa básica de juros, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central do Brasil se reúne hoje com a intenção de iniciar um período de redução da Selic. Esse movimento foi definido pelo próprio diretor do BCB, Nilton David, como uma “calibragem”. O plano original da autoridade monetária era inaugurar esse processo de corte com movimentos de 50 pontos-base (0,5 ponto percentual), mas a eclosão do conflito envolvendo EUA, Israel e Irã adicionou uma variável que bagunçou as perspectivas de juros no mundo todo. O que testemunhamos nos últimos dias foi uma forte reprecificação: países emergentes e desenvolvidos viram suas curvas futuras mudarem de patamar. Quem operava com juros no nível neutro passou a projetar a necessidade de elevação, e quem já contava com cortes viu essa precificação ser drasticamente reduzida ou, em casos mais severos, revertida para apostas de alta.
Há três efeitos fundamentais que o petróleo impõe e que as autoridades precisam monitorar. O primeiro é o custo direto: a energia encarece a produção e gera pressão sobre os resultados das empresas, o que leva ao repasse para os preços finais de bens e serviços – algo que vimos claramente no choque após o início do conflito entre Rússia e Ucrânia. O segundo é a pressão por reajustes salariais decorrente desse aumento de custo de vida; quanto menor a taxa de desemprego, maior a capacidade do trabalhador de exigir reajuste, o que retroalimenta a inflação. Por fim, há o efeito sobre as expectativas. Como o preço do combustível é extremamente visível para a população, o sentimento de perda de poder de compra se dissemina e potencializa os pedidos de elevação de preços, seja por parte de empresários ou de trabalhadores.
Esse choque de energia, porém, atinge o cenário global em um momento particular. Estávamos justamente no meio de uma reavaliação profunda dos juros no mundo, motivada pelo ganho de produtividade vindo da adoção disseminada da inteligência artificial. A IA está elevando o produto potencial da economia global ao mesmo tempo em que começa a reduzir o poder de barganha dos trabalhadores – uma dinâmica que, se confirmada, permite crescimento forte com inflação comportada e juros baixos, ainda que acompanhado de um maior desemprego estrutural.
Em uma visão assumidamente otimista, entendo que os ganhos de produtividade são sempre bem-vindos: a história nos ensina que, enquanto antigas profissões deixam de existir, novos serviços e produtos surgem para gerar oportunidades. Além disso, a perspectiva de aumento na concentração de renda levará os governos, nesse cenário, a buscar formas de tributar a renda mais elevada e distribuí-la, focando nos jovens que tentam ingressar em um mercado de trabalho transformado pela inovação. O mundo seguiria, portanto, em uma transição de PIB alto com inflação baixa – mas isso não blinda as economias contra choques, e a elevação dos preços de energia é um fator que nenhum formulador de política monetária pode ignorar.
Contudo, o argumento de que o choque do petróleo gerará inflação generalizada encontra-se enfraquecido hoje. Ainda não temos evidência empírica robusta de que a IA já está afetando o mercado de trabalho nessa magnitude, mas o choque de energia ocorre em um momento em que o poder de barganha dos trabalhadores dá sinais de redução, mesmo com as métricas de mercado ainda não mostrando deterioração significativa. Isso permite que bancos centrais que operam em regime de juros contracionistas, como o nosso, mantenham a serenidade. É o momento de seguir a máxima de Paulinho da Viola: no nevoeiro, o velho marinheiro leva o barco devagar.
É preciso considerar ainda que, se os preços de energia se mantiverem elevados de forma permanente, poderemos observar uma desaceleração do consumo pela perda real de poder de compra. Com os trabalhadores perdendo capacidade de exigir reajuste salarial devido à automação e à IA, o resultado tende a ser um crescimento econômico menor, o que, ironicamente, abre mais espaço para juros ainda mais baixos lá na frente. Grande parte dessa tese depende de confirmarmos se a IA de fato reduzirá o poder de barganha laboral; nossa hipótese é que sim.
Diante disso, o BCB deve, sim, iniciar o processo de corte hoje, mas ajustando o passo inicial para 25 pontos-base (0,25 ponto percentual), levando a Selic a 14,75%. O objetivo é aguardar os desdobramentos do cenário energético até a próxima reunião para definir se será possível retomar os 50 pontos-base, manter o ritmo cauteloso ou interromper o processo. Nos EUA e no Reino Unido, o evento também posterga o ciclo de cortes, mas não altera a perspectiva de juros menores no horizonte longo. A exigência de serenidade aos bancos centrais se mantém e, hoje, é mais necessária do que nunca.

