Analistas e gestores buscam entender se o forte fluxo que estamos vendo de compras de commodities e países emergentes é sustentável no longo prazo

Hoje é dia de superquarta com as decisões de política monetária nos EUA e no Brasil, que normalmente adicionam volatilidade ou alteram tendências de médio prazo, principalmente nas decisões do Federal Reserve sobre os juros nos EUA, que impactam o mundo. Porém, o real interesse dos analistas e gestores é se o forte fluxo que estamos vendo de compras de commodities e países emergentes é sustentável no longo prazo. Será o renascimento dos emergentes?

Nas primeiras semanas de janeiro, as commodities metálicas como ouro, prata e platina sobem entre 15% e 50%. As bolsas de países emergentes na América Latina sobem em dólar entre 10% e 25%. No Brasil, onde os investidores locais estão preocupados com a eleição, o investidor estrangeiro já comprou R$ 18 bilhões em poucos dias, impulsionando o EWZ (nossa bolsa em dólar) a subir 15%.

A reorganização do tabuleiro geopolítico global ganhou mais um capítulo nesse início de ano com a intervenção dos EUA na Venezuela, prendendo Nicolás Maduro por organização criminosa. A sinalização para o mundo foi clara: a América Latina é parte dos aliados estratégicos dos EUA e parte da solução para reduzir a influência da China.

O modelo de globalização que dominou os últimos 30 anos foi construído sobre a premissa de que tínhamos que ter o máximo de eficiência. Produção deslocada para onde fosse mais barata, cadeias de suprimento “just-in-time”, energia importada de regimes pouco confiáveis, gastos militares reduzidos e crescimento sustentado por crédito abundante. Durante três décadas, esse arranjo entregou bens baratos, mercados em alta e a impressão de prosperidade contínua.

A entrada da China na OMC, a expansão do comércio global e a integração de centenas de milhões de trabalhadores ao capitalismo criaram um choque deflacionário único. Consumidores ganharam; trabalhadores industriais perderam. A pandemia e a guerra na Ucrânia mostraram que esse modelo precisava de uma mudança. Descobriu-se que eficiência sem redundância é vulnerabilidade. Faltaram semicondutores, remédios, energia. Países que haviam terceirizado sua base industrial perceberam que dependência econômica também é dependência estratégica.

A energia é outro exemplo. A transição climática é necessária, mas parte dela foi conduzida como um projeto moral, não estratégico. O fechamento de usinas nucleares na Alemanha, combinado à dependência do gás russo, revelou o risco de políticas baseadas em aspiração sem considerar poder e segurança.

Esse modelo chegou no limite com a constante insatisfação da classe média americana, que estava perdendo empregos para a China e com uma fronteira aberta para trabalhadores imigrantes mais baratos. Trump percebeu essa insatisfação e conseguiu ser eleito com uma ampla maioria em 2024. O governo Trump está implementando uma reorganização desse tabuleiro geopolítico. Por mais que a forma assuste a maioria, ele já conseguiu algumas vitórias. A Europa está se rearmando e vai garantir a segurança na região, as fronteiras estão mais controladas e as cadeias de produção estratégicas estão menos dependentes da China, beneficiando a indústria nos EUA e os países da América Latina como parceiros estratégicos, devido à sua abundância de commodities, inclusive terras raras e commodities agrícolas no caso do Brasil, e petróleo no caso da Venezuela.

Essa transformação resulta em cadeias de suprimento mais curtas. Energia e indústria voltarão a ser tratadas como ativos estratégicos. Gastos com defesa tendem a permanecer elevados. O crescimento pode ser mais lento e os bens mais caros; a inflação estrutural tende a ser mais alta e, consequentemente, os juros reais. Esse rebalanceamento global vai continuar nos próximos anos, elevando o fluxo para países emergentes, pois essa rearrumação é uma política de Estado. Após anos de alocação de investimentos em dólar nos EUA, os emergentes ressurgem em um novo superciclo estrutural.

Voltando para a superquarta, a decisão do Fed não deve trazer surpresas. A expectativa de manutenção do juro até o meio do ano é amplamente esperada. Os ganhos de produtividade com IA estão garantindo crescimento sólido e inflação ainda baixa, devido à desaceleração do mercado de trabalho.

Já no Brasil, o cenário melhorou desde a última reunião. Apesar de números mais fortes do mercado de trabalho de novembro, o ambiente positivo para fluxos para países emergentes garante um câmbio calmo no Brasil, mesmo com a grande incerteza eleitoral que foi criada desde dezembro com o lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro. A inflação caiu de 6% para 4% e a projeção para o horizonte relevante do BC se aproxima de 3%. Mesmo com uma desinflação vindo de itens voláteis, o Copom pode reduzir o grau de aperto do juro real enquanto acompanha o desenrolar do cenário eleitoral e o fluxo que tem beneficiado o Brasil. O ciclo total de cortes vai depender de qual política fiscal vamos seguir com o próximo governo.