Fragmentação dos candidatos da direita aumenta a incerteza, elevando a volatilidade dos ativos domésticos
Hoje teremos a última reunião do Copom do ano e o mercado vai estar atento à sinalização dos próximos passos. Após um ciclo de aperto de 450 pontos-base (4,5 pontos percentuais), levando a taxa Selic a 15%, patamar mais alto desde 2006, espera-se uma sinalização de que o período bastante prolongado de juros estáveis se encerre no primeiro trimestre de 2026. O tamanho do ciclo de corte de juros vai depender do cenário eleitoral, que se apresenta mais volátil devido ao lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro, representando a família do ex-presidente. A fragmentação dos candidatos da direita aumenta a incerteza, elevando a volatilidade dos ativos domésticos.
A comunicação do Banco Central sobre o futuro da política monetária veio evoluindo nas últimas reuniões. Nas reuniões de junho e julho, o foco era avaliar os impactos cumulativos após a interrupção do ciclo de alta. Em setembro, a menção à interrupção do ciclo foi removida, mas a taxa de 15% permanecia sob avaliação. Já em novembro, o comitê manifestou confiança na estratégia vigente, declarando que a manutenção do nível corrente por um período prolongado é suficiente para assegurar a convergência da inflação à meta. O diretor de política monetária, Nilton David, deixou claro que aumentar os juros não está mais no cenário base do BC, e que agora é entender quando será o processo de corte.
Desde a última reunião, as leituras de inflação foram positivas. A inflação de bens industriais e agrícolas segue se beneficiando por um câmbio mais baixo. Alguns núcleos importantes, como os serviços subjacentes, voltaram a convergir dentro da banda de sazonalidade do BC; porém, itens sensíveis ao mercado de trabalho ainda seguem desconfortáveis. As expectativas de inflação medidas pela pesquisa Focus recuaram para 2025 e 2026, sem alterações para os anos seguintes.
Nos dados de atividade, tivemos arrefecimento indicados pelas vendas no varejo, produção industrial e a Pesquisa Mensal de Serviços, com algumas aberturas relevantes demonstrando fraqueza. Por fim, o PIB do terceiro trimestre ficou abaixo das expectativas, mostrando alta de 0,1% comparando os trimestres, sustentado apenas pelo PIB do agro, que subiu 0,4%. O mercado de trabalho segue bastante resiliente, com taxa de desemprego em 5,4%, mas a criação de vagas do Caged em outubro apontou um ritmo mais fraco. A desaceleração nas médias móveis trimestrais já é nítida, indicando arrefecimento à frente.
O cenário externo segue benigno. O Fed se reúne hoje para mais uma queda de juros, mesmo com um comitê dividido. A atividade vai continuar resiliente devido ao forte investimento na cadeia de IA, e a diversificação ao dólar no mundo deve seguir, garantindo assim um ambiente global de dólar fraco, beneficiando os países emergentes. O risco para o ano que vem se assemelha ao Brasil. Nos EUA, as eleições no Congresso americano vão trazer volatilidade na parte longa de juros com os cheques prometidos por Donald Trump para devolver à população parte dos ganhos arrecadados com o aumento das tarifas.
Em sua última fala para o mercado, Gabriel Galípolo reforçou o tom “hawk”, indicando que o Copom não reage a um dado apenas e que não tivemos surpresas no cenário entre as reuniões – e que a evolução do mesmo ainda se mostra insuficiente.
Na reunião de hoje, o Copom deve reconhecer de forma mais explícita que a política monetária já opera há um período prolongado em território bem restritivo, e que a estratégia adotada desde dezembro de 2024 está funcionando como o esperado. Nesse contexto, elevam-se as chances de uma menção aos efeitos defasados da atual política como uma forma suave de deixar a porta aberta para iniciar o ciclo como mais provável em março, mas sem fechar a porta para caso o cenário evolua muito favoravelmente até a reunião no final de janeiro.
O cenário eleitoral ao longo de 2026 vai decidir a extensão do ciclo de queda. Em caso de alternância de poder, a probabilidade de mudança da rota fiscal é muito provável, o que abriria a porta para um ciclo longo de queda, para uma Selic de volta a um dígito.

