Copom se reúne no momento em que Fed sinaliza processo de redução de estímulos monetários e diante de inflação doméstica que não dá trégua
Em seu último comunicado, o Copom sinalizou que o ambiente global havia se tornado menos favorável diante do receio das principais autoridades com relação à continuidade das pressões inflacionárias, o que tornaria a liquidez mais desfavorável para os países emergentes, gerando depreciação cambial devido à saída de recursos para locais mais seguros. Desde então, o ambiente global vem caminhando na direção de maior persistência da inflação, com o forte aumento da demanda gerando pressão generalizada de preços em quase todos os segmentos e países. Em resposta a esse ambiente, os responsáveis pela condução da política econômica têm iniciado o processo de retirada dos instrumentos utilizados para minimizar os custos econômicos derivados do isolamento social colocado em prática por causa da pandemia de covid-19.
Há pouco mais de um ano, após a vitória do Partido Democrata no Senado da Georgia, nos EUA, a percepção sobre a condução da política econômica era totalmente diferente. Por causa da incapacidade da inflação em reagir à enxurrada de estímulos pós-2008, criou-se a impressão nos mercados e nos formuladores de política que a inflação deixaria de ser um problema, tendo se tornado, na verdade, desejável algum aumento do nível de preços. Com isso, diversas políticas de estímulo foram tentadas, como o experimento do juro negativo, o “forward guidance” e o controle da curva de juros a mercado. Nenhum deles resultou em um aumento inequívoco da inflação, colocando em dúvida a capacidade global de gerar aumento de preços. Diante desse ambiente, viu-se uma ampla aceitação da teoria monetária moderna – conhecida como MMT -, em que a relação entre taxa de juros e inflação se encontraria invertida e haveria um farto e irrestrito apoio a políticas fiscais ativas de forma mais permanente, dado que o desbalanceamento entre oferta e demanda atual teria que ser sustentado pelo maior espaço do orçamento público no PIB.
Ao longo do ano de 2021, com o avanço da vacinação e problemas localizados nas cadeias de produção de diversos bens, esse desbalanceamento entre oferta e demanda foi se alterando, gerando uma pressão sobre os preços que foi vista inicialmente como passageira, com tendência de retorno no curto prazo, devido aos incentivos gerados pelos preços mais elevados sobre a oferta global. Não foi o que aconteceu. O fenômeno que era percebido como momentâneo foi aos poucos contaminando os demais preços da economia e gerando um processo inflacionário que há tempos não era observado e que, em teoria, seria bem-vindo. O diagnóstico, que começou sendo de que havia falta de demanda na economia, se tornou de falta de oferta e, posteriormente, se mostrou como sendo excesso de demanda. E quando há excesso de demanda, a resposta de política tende a ser rápida e objetiva.
Os vultosos planos fiscais globais, com destaque para os importantes investimentos de baixo carbono, foram deixados de lado e a discussão sobre pacotes fiscais não conseguiu avançar nos parlamentos pelo fato de o humor popular ter virado para a necessidade de redução da inflação. Os indicadores de popularidade do presidente Joe Biden deixam isso bem claro e há, inclusive, uma pressão política nos EUA sobre o Fed para acelerar o combate à inflação, com o objetivo de otimizar as probabilidades eleitorais do Partido Democrata nas “mid-terms elections”.
Assim, em sua última reunião de política monetária, o recado do Fed foi bem claro: nós iremos iniciar e de forma “humble and nimble” o processo de redução dos estímulos monetários. Com isso, as precificações de aumento de juros de curto prazo dos EUA se elevaram. Outros BCs do mundo já começaram a sentir a pressão e ajustaram a taxa de juros além do esperado, como é o caso do Chile e da Colômbia.
Como o próprio Banco Central do Brasil havia sinalizado, o risco global derivado de uma postura diferente dos BCs se avizinhava, o que seria redutor de liquidez, exigindo mais de nossa política monetária. É neste ambiente que o Copom se reúne hoje, alimentado ainda por uma inflação doméstica que não dá trégua. Por outro lado, os receios com relação aos fluxos de capitais, até o momento, mostraram-se infundados, com os ativos de países emergentes melhorando sobremaneira. Além disso, o nosso juro básico já se encontra em patamar que em outros momentos foi contracionista. O desafio do Copom será o de mostrar como equilibrar esses pontos e entregar aos agentes econômicos a crença de que iremos ter uma convergência intertemporal da inflação para a meta. Não está sendo fácil a vida do nosso BC.

