O Banco Central precisa, acima de tudo, perseverar na comunicação da necessidade de manter as expectativas de inflação sob controle

Hoje teremos as reuniões do comitê de política monetária do Federal Reserve e do Banco Central do Brasil. A autoridade monetária americana deve retomar o processo de cortes de juros, levando a Fed fund para um patamar mais próximo do neutro, entre 2,75% e 3,0%. A decisão ocorre em um ambiente marcado por condições financeiras extremamente expansionistas: bolsas em máximas históricas, spreads comprimidos e apetite por risco elevado. Essa decisão amplia a possibilidade de um repique inflacionário à frente. Ainda assim, o Fed parece determinado a flexibilizar, mesmo convivendo com tais riscos. A decisão terá impacto global, com efeitos diretos sobre moedas emergentes e sobre o espaço de atuação de bancos centrais como o brasileiro.

No Brasil, a situação é diferente, mas igualmente complexa. O Banco Central precisa, acima de tudo, perseverar na comunicação da necessidade de manter as expectativas de inflação sob controle. Apesar do recuo recente da inflação esperada, as expectativas permanecem muito acima da meta. Isso significa que, mais do que a própria decisão sobre a Selic, a mensagem do Copom será determinante para preservar a credibilidade conquistada e reforçar a trajetória de convergência inflacionária.

O hiato do produto segue como variável central para a análise. O mercado de trabalho ainda mostra aquecimento, com desemprego baixo e salários em patamar elevado. A incerteza sobre a real diferença entre o desemprego atual e a Nairu (taxa de desemprego natural, na sigla em inglês) amplia os riscos de persistência inflacionária. A leitura recente da inflação também reforça esse diagnóstico: o segmento de bens vem registrando desinflação consistente, enquanto os serviços, fortemente ligados à dinâmica salarial, continuam pressionados. Esse descompasso cria uma inflação de “duas velocidades”, com sinais benignos em bens e pressões persistentes em serviços.

A pergunta central é por que a desaceleração do crédito e da atividade ainda não se refletiu de forma clara no mercado de trabalho. Três hipóteses ajudam a explicar: (i) a defasagem clássica, já que o emprego costuma ser o último a reagir ao ciclo econômico; (ii) o baixo crescimento potencial da economia brasileira, que faz com que mesmo taxas modestas de expansão gerem pressões relevantes no mercado laboral; e (iii) o excesso de renda injetada pela política fiscal, que desde a pandemia tem sustentado artificialmente parte da demanda. Esse último fator é decisivo, pois criou uma economia com duas velocidades: setores dependentes de crédito se enfraquecem, enquanto setores apoiados por transferências de renda permanecem resilientes.

Esse arranjo torna o trabalho do BCB mais difícil. A política monetária cumpre sua função, mas seus efeitos são limitados pela sustentação fiscal da atividade. Na prática, a Selic não produz todos os resultados esperados historicamente, o que obriga a autoridade monetária a insistir por mais tempo e com maior intensidade. Nesse contexto, perseverar é essencial: mesmo diante de sinais de desaceleração, não há espaço para transmitir qualquer percepção de complacência.

Ao mesmo tempo, o ambiente internacional abre uma janela de oportunidade. A apreciação cambial observada ao longo do ano reduziu pressões inflacionárias e permitiu que a Selic não precisasse ser elevada a níveis extremos, próximos de 18%. Agora, com a expectativa de cortes nos Estados Unidos, o diferencial de juros tende a se ampliar novamente. Esse movimento deve ser explorado de forma estratégica pelo BCB, de modo a reforçar a convergência da inflação para a banda da meta e melhorar as expectativas de médio prazo.

O ponto central é a ancoragem das expectativas. Sem isso, a desinflação em bens dificilmente se sustentará diante da rigidez em serviços. A política monetária não conseguirá, sozinha, resolver todos os desequilíbrios estruturais, mas pode otimizar seus efeitos se consolidar credibilidade e reforçar os sinais de comprometimento com o mandato.

Por isso, o recado do Copom precisa ser firme: não é hora de fraquejar. A política monetária já mostra resultados, mas sua eficácia plena não virá na velocidade do passado. O mercado de trabalho aquecido, a economia dualizada entre renda e crédito e as expectativas desancoradas exigem perseverança. O momento pede firmeza na comunicação, continuidade na estratégia e foco absoluto no controle inflacionário.

O Copom deve reforçar que a prioridade é trazer a inflação para a meta, consolidar expectativas e preservar a credibilidade da política monetária. Esse é o caminho para garantir que, no médio prazo, a estabilidade de preços seja entregue de forma sustentável.