Desafio do Copom é deixar claro que cortes só ocorrerão quando houver condições técnicas, ou seja, com expectativas de inflação firmemente ancoradas
Esta semana é marcada por importantes reuniões de bancos centrais ao redor do mundo. Nos Estados Unidos, em meio a uma forte pressão política por cortes de juros e a movimentações internas de dirigentes do Federal Reserve em clara campanha por cargos futuros, o presidente Jerome Powell enfrenta o desafio de manter a precificação de mercado de cortes ainda em 2025 sem transmitir a ideia de que age sob influência política, num contexto em que os riscos inflacionários permanecem relevantes.
Desde o início da implementação das tarifas comerciais pelo governo americano contra outros países, o Fed tem reiterado que os impactos sobre a inflação de bens serão significativos e ainda devem se materializar nos próximos meses. As projeções do Fomc indicam que o PCE seguirá acima da meta em 2025 e 2026.
Há um receio crescente de que possa ocorrer, em menor escala, uma repetição do choque inflacionário observado no pós-covid, quando a forte alta dos preços de bens – resultante do excesso de demanda e de gargalos na oferta – acabou se transferindo para a inflação de serviços, alimentada por um mercado de trabalho desbalanceado. Agora, com tarifas sobre bens importados em níveis elevados e um mercado de trabalho aquecido, o risco de um novo choque inflacionário ronda o cenário do Fed, o que tornaria imprudente qualquer movimento precipitado de afrouxamento monetário. O desafio de Powell se intensifica diante do foco político sobre sua gestão, com críticas ligadas até a reformas físicas do banco central, mas que, na prática, refletem a tentativa de parte da classe política de pressionar a política monetária para compensar um quadro fiscal claramente expansionista. Em Washington, muitos veem a taxa de juros como variável de escolha e não como variável de ajuste, um equívoco que também sempre se observou no debate fiscal brasileiro.
No Japão, a reunião do Banco Central também gera atenção, uma vez que a expectativa de retirada gradual das políticas ultraestimulativas adotadas há décadas vem provocando uma abertura nos rendimentos dos títulos longos japoneses. Esse movimento tende a pressionar os “yields” globais, incluindo os Treasuries, amplificando os efeitos de um contexto já marcado por tensões comerciais e políticas sobre as decisões do Fed.
No Brasil, a situação é distinta. O Banco Central, na contramão do movimento global, busca ancorar expectativas de inflação que ainda estão desajustadas, em parte devido à percepção de descontrole fiscal e a questionamentos sobre a independência da atual diretoria. Ainda assim, a postura do BCB tem sido bem recebida pelo mercado, ao sinalizar que manterá os juros em patamar elevado até que a confiança na trajetória de convergência da inflação à meta seja restabelecida. Após indicar o encerramento do ciclo de alta de juros, o desafio do Copom é deixar claro que cortes só ocorrerão quando houver condições técnicas, ou seja, com expectativas de inflação firmemente ancoradas.
Hoje, o juro real da economia brasileira está próximo de 10%, muito acima do juro neutro estimado pelo próprio Copom em torno de 5%. Esse nível restritivo se tornou necessário diante de uma política fiscal expansionista, fenômeno que encontra paralelos com a situação americana. À frente, a política fiscal seguirá estimulativa, em especial com as mudanças no imposto de renda para pessoas físicas, que transferem renda de poupadores para consumidores e elevam a demanda no curto prazo. Por outro lado, o elevado juro real continuará cumprindo seu papel, fortalecendo a moeda e reduzindo expectativas inflacionárias, o que pode abrir espaço para o início de um ciclo de cortes na virada do ano. Esse movimento, no entanto, será altamente dependente do comportamento do câmbio e das expectativas de inflação para 2026, ano eleitoral, sempre marcado por maior volatilidade.
Até lá, o Copom precisa manter a estratégia de reconstrução de credibilidade, reforçando o compromisso com a meta de inflação e conduzindo a política monetária com paciência e serenidade. O momento exige firmeza na comunicação e na postura técnica, pois os resultados dessa política restritiva começam a aparecer, mas um passo em falso poderia comprometer a ancoragem conquistada.

