Qualquer sinal, por mais sutil que seja, de mudança na comunicação do BC, sugerindo flexibilização prematura, traria um custo elevado
Há tempos se observa no Brasil uma desancoragem das expectativas de inflação. Parte dessa perda de ancoragem pode ser atribuída à política fiscal – nosso velho calcanhar de Aquiles -, que suscita dúvidas persistentes sobre a capacidade do país de refinanciar sua dívida sem pressionar os preços. Essa incerteza adiciona um prêmio inflacionário implícito às projeções futuras, elevando-as acima da meta estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN).
Por outro lado, a desancoragem também tem raízes monetárias. Persiste, entre agentes econômicos, certa desconfiança sobre a independência da autoridade monetária frente a mudanças de governo. Diante disso, o mercado exigiu um “prêmio de credibilidade” da nova diretoria do Banco Central (BCB). A boa notícia é que o BCB percebeu esse ponto e tem agido com firmeza para dissipar essas dúvidas – justamente num momento em que, em escala global, a política fiscal deixou de funcionar como instrumento anticíclico e passou a atuar de forma quase permanente como estímulo à demanda. Assim, resta à política monetária o papel quase solitário de garantir a estabilidade de preços, exigindo muito de um instrumento altamente visível e sensível na sociedade.
Como argumentei em artigos anteriores, acredito que a taxa Selic necessária para trazer a inflação de volta à meta estaria mais próxima de 18% do que dos atuais 15%, em que o Copom a fixou. Contudo, a estratégia adotada pelo BCB foi outra: manter uma postura firme na comunicação, a fim de manter o grau de restrição monetária elevado por tempo suficiente para fazer o trabalho que seria compatível com a Selic mais elevada, demandando mais paciência. A aposta é manter a política monetária claramente contracionista – e ela se torna ainda mais restritiva à medida que a inflação corrente e as expectativas recuam – pelo tempo necessário para reancorar as expectativas.
Qual é a lógica desse mecanismo? À medida que a inflação e as expectativas caem, a política monetária se torna mais apertada em termos reais, retirando estímulos da economia. Nesses momentos, a pressão social e do mercado por cortes de juros tende a crescer e exigir movimentos fortes e rápidos da política monetária. Quando o BCB resiste a essa pressão e mantém uma postura restritiva, envia um sinal poderoso: sua prioridade é cumprir a meta de inflação, e não cederá a influências externas. Restabelecer a credibilidade leva tempo, mas, à medida que os agentes percebem essa consistência, reduzem suas projeções de inflação futura.
E quão relevantes são essas expectativas? Recentemente, o BCB publicou os primeiros resultados da pesquisa Firmus, que investiga diretamente como as empresas formam seus preços – em contraste com as tradicionais sondagens junto a economistas. Um dos achados mais relevantes é que as empresas utilizam fortemente as projeções de inflação do Boletim Focus em suas decisões de reajuste. Isso reforça o quanto o controle das expectativas é crucial não apenas para a estabilidade macroeconômica, mas também para o bem-estar da sociedade – especialmente em uma economia em que a indexação ainda permeia contratos e decisões de consumo.
Diante desse quadro, a reunião de hoje do Copom deixa apenas uma opção viável à autoridade monetária: manter a estratégia que, aos poucos, está reequilibrando o jogo. Qualquer sinal – por mais sutil que seja – de mudança na comunicação, sugerindo flexibilização prematura, traria um custo elevado: a reabertura de dúvidas sobre o compromisso com a meta, o retorno de prêmios inflacionários e, potencialmente, a necessidade de um ciclo mais longo e doloroso de ajuste no futuro.
Este é o momento de perseverar na mensagem. Ao consolidar a credibilidade da política monetária, o BCB cria as condições para que o Brasil conviva, de forma duradoura, com juros reais mais baixos – um ganho estrutural essencial para o crescimento sustentável da economia e para a inclusão financeira de milhões de brasileiros. Por outras vezes imaginamos a possibilidade de convivência de um ambiente de juros mais baixos, o que não se concretizou. O Banco Central independente e crível e uma regra fiscal que limite o crescimento das despesas públicas podem permitir que isso se realize.

