Mais importante do que um gesto isolado será a sinalização do Copom
Hoje, os mercados globais voltam suas atenções para duas decisões centrais de política monetária: o Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc), nos Estados Unidos, e o Comitê de Política Monetária (Copom), no Brasil. Ambas as reuniões ocorrem em um momento importante nos ciclos econômicos e exigem leitura fina do cenário prospectivo para calibragem correta da política monetária.
No caso americano, a postura “hawkish” adotada nas últimas comunicações tinha como pano de fundo o temor de que a nova rodada de tarifas comerciais viesse a pressionar os preços de bens, dificultando o retorno sustentado da inflação ao alvo de 2%. No entanto, dados mais recentes – especialmente os pedidos semanais de auxílio-desemprego – sugerem que o mercado de trabalho começa a perder tração, abrindo espaço para uma leitura menos hawkish por parte do Fed. Além disso, a inflação de serviços finalmente retornou para patamares consistentes com o ambiente pré-pandemia, ao passo que os preços de bens ainda não reagiram à introdução das tarifas.
Há também uma característica singular deste novo ciclo de tarifas: o dólar mais fraco no momento de sua introdução. Isso significa que o choque é duplo para o consumidor americano – tarifas + desvalorização cambial – e desinflacionário para o resto do mundo, que observa preços de bens comerciáveis em queda. Ainda assim, a inflação não apenas não subiu nos EUA, como recuou.
É justamente nesse ambiente em que os primeiros sinais de desaquecimento cíclico se encontram com uma inflação controlada que o Fomc deve aproveitar para mudar gradualmente a retórica. Ainda que novos estímulos fiscais possam aparecer e o risco tarifário siga no horizonte, o Fed pode abandonar o tom duro e migrar para uma comunicação mais simétrica, em linha com o estágio atual do ciclo econômico. Esse pano de fundo favorece a continuidade de um ambiente de dólar estruturalmente mais fraco.
E como o Copom deve reagir a esse novo contexto global?
Em primeiro lugar, o Brasil está se beneficiando da desinflação importada, via apreciação cambial e alívio nos preços de commodities. Apesar de o petróleo ter subido desde o último Copom, os efeitos sobre a inflação doméstica têm sido mitigados por um câmbio mais favorável. Isso permitirá leituras benignas da inflação no meio do ano, jogando o IPCA de 2025 para níveis abaixo do previsto até recentemente.
O problema, contudo, segue na parte longa da curva de expectativas inflacionárias. As projeções de inflação para 2026 e anos subsequentes continuam desancoradas. Por quê?
(i) A política fiscal atual perdeu completamente sua capacidade de ancoragem. Como o ambiente político impede aumentos de impostos e a proximidade eleitoral trava a agenda de contenção de despesas, a perspectiva de reversão estrutural do desequilíbrio fiscal fica postergada para além de 2027. A incerteza sobre o próximo ciclo político impede qualquer reancoragem consistente no curto prazo.
(ii) A atividade segue resiliente e o mercado de trabalho permanece aquecido, o que limita o processo desinflacionário via hiato do produto. A proximidade de 2026 sugere, ainda, que estímulos adicionais – como liberação de crédito, reforço de transferências e flexibilizações tributárias – serão utilizados, reforçando a pressão de demanda.
(iii) Por fim, como grande parte da desinflação recente tem origem externa, ainda há dúvidas quanto à sua persistência. A percepção de que o alívio nos preços é transitório impede que as expectativas de médio e longo prazo convirjam para a meta de forma espontânea.
Ainda assim, há sinais iniciais de reversão nessa dinâmica. A comunicação firme do Banco Central (BC) contribuiu para estabilização das expectativas. O BC pode – e deve – reforçar esse processo.
Nossa expectativa é que o Copom eleve a taxa Selic em 0,25 ponto percentual na reunião de hoje, encerrando tecnicamente o ciclo de aperto. Mais importante do que o gesto isolado será a sinalização: o comitê deverá condicionar qualquer corte futuro à convergência do cenário prospectivo de inflação – incluindo expectativas – para o centro da meta.
É a hora ideal de o BC encerrar o ciclo e reconquistar a credibilidade. A parte mais difícil do trabalho foi feita e é o momento de uma conclusão magistral. Não podemos errar.

